Branco. Nunca foi um problema, talvez vez ou outra diante do excesso de bebedeiras da juventude, das drogas licitas e ilícitas, e da memória falha ao longo dos anos,decorrente da idade avançada. Branco. Um contraste explícito, branco do preto,preto no branco? A roupagem de couro preto, pesada aos olhos,leve ao corpo, fundamental à mensagem que se pretende passar, ao gênero que este consolida, dá cor, voz e vida. Branco, da paz que parece não pregar aos ouvidos dos desentendidos, mas que defende, ainda que no expressar verbal soe por vezes ofensivo. Branco do nascimento na cultura ocidental, da morte na oriental. Conjunção de cores, fusão de desejos e expectativas. Branco, o preto.Preto. Dos cabelos então longos, agora não mais tão volumosos e já deixando escapar a experiente mistura do branco e do preto. Preto. Da cor que milhares de seguidores vestem enquanto absorvem lentamente as palavras fortemente entoadas por uma poderosa combinação de fisiologia,aprendizado e amor à música. Preto, do sabá a que pertenceu. Preto, das roupas que seu corpo envolvia nos momentos de saudar aos homens e mulheres com gritos, tons,semitons,graves e agudos em compassos pares e ímpares.Preto, negro,sabático, céu e inferno, da voz feroz e de poder inconcebível.Vermelho, do sangue que em seu corpo corre, que em seu intestino tão danificado ,pára agora de fluir. Vermelho, da paixão daquele que agora sentem sua falta, dos amores familiares e amigos da despedida. Vermelho que se faz agora saudade, do Preto e Branco correndo pelos palcos, do vermelho,laranja,amarelo,verde,azul e violeta. Saudades de um arco-íris na escuridão, do pote de ouro que a música viu se esvaziar.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
#7 - Um último mergulho
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domingo, 11 de abril de 2010
#6 - Doce desejo,rimando o beijo
"Onde está ela, dentre todas a mais bela?Toda linda,linda ela, e não, isso não e balela!Bala de uva ou framboesa, bala que embala o beijo teu que eu sonhei assim:Arara azul voa rasteira, aproveita o vento que vem bem forte. Seu cabelo voa,bate o sol e brilha. Meu olho olha no seu e meu coração bate porque agora é teu. Vem lá de trás um barulhinho manso, um grilo pulando e me aconselhando assim "é ela,então vai nela". Filmando a cena está uma mão que empunha uma câmera que,por efeito de luz ou por efeito de emoção, me deixa vermelhinho com essa aflição - ela quer ou não?Mindinho toca mindinho, iniciando o entrelaçamento de duas mãos que tremem ao pensar no que vem depois. E lá pertinho passa um garotinho,uma rosa numa mão e um flauta noutra: a rosa é pra ti e a flauta ,ele diz, vai embalar num do ré mi a hora que eu chego juntinho a ti. Encanto,magia,distância tão curta que a vista ficou turva e seus olhos fundiram com os meus, e seus lábios tocaram os meus, e o céu então negro,enrubesceu. Paixão.Saudade."
terça-feira, 30 de março de 2010
#5 - Vendendo seu peixe
Foi assim, tentando vender um peixe, que eu acabei vendendo o homem. Uma jogada de marketing fenomenal, do tipo que deixaria pra trás qualquer transformação de água em vinho.
Era um peixe dourado, desses bem bobinhos, fica quieto o dia todo; bolhinha pra lá,bolhinha pra cá, vez em quando indo de cara para o aquário como se quisesse atenção. Era fácil de alimentar, lidar com um bicho desses é tarefa pra meio neurônio esperto. Peixe não pensa muito,acho até que não pensa é nada, só nada, assim sem rumo. Organiza-se num bando que de organizado mesmo não tem lá muita coisa,é um ataque desenfreado em busca de comida. Não é ameaça.
Sério,meu caro, na teoria isso e fácil de vender! Quando me passaram a tarefa logo vi meu mérito aumentar. Engano meu. O chefe não se contentou com aquele biquinho manso e do nado sincronizado. Ele queria mais,queria bem mais que um mero peixinho. Cá comigo logo disse :”opa,tenho aqui então esse belo sapo! Olha só como salta por aí maravilhosamente!” Rechaçado, na hora,sem dó nem a piedade esperadas. Ofereci um jacaré “NÃO”, um camaleão “NÃO”, fiz de tudo pra que ele adquirisse o papagaio azul celeste, mas ele acenou negativamente. Cliente difícil viu. Resolvi apelar, peguei logo dois bichos que eu julgava interessantes, que eu achava mesmo serem do agrado do patrão. Mandei logo um golfinho e um chimpanzé. Ele olhou assim,meio atravessado para o golfinho, arrisco dizer que achou bonito o design aerodinâmico do mamífero que parecia um peixe...esse foi o problema, eu não devia ter mandado algo que parecesse um peixe.
Botei fé no chimpanzé. Peludinho,quase fofo, inteligência acima da média, até demonstra afeto. Impossível não ficar tocado. Impossível não existe no dicionário do Senhor Chefe. Foi um não dos mais ásperos. Doeu fundo, bateu com força jamais vista, estrondosa, onipresente. É o estilo do patrão, nada que eu podia fazer.
Fui saindo cabisbaixo,falaram que a propaganda era a alma do negócio, a minha estava muito em falta, toda ausente, se é que eu um dia tive uma. Fui caminhando lentamente, baqueado pelo fracasso, indignado com minha incompetência pra vender algo tão simples, fiquei com a sensação estranha de que eu não tinha levado nada novo pra Ele, tudo soava velho, pouco evoluído, talvez repetitivo – algum concorrente deve ter visto minhas idéias e apresentado antes, só pode! Ah se eu acho o desgraçado! Vai se ver comigo,oh se vai! A idéia de ter sido roubado não saia da minha cabeça, o ódio crescia,rompia no peito. Abri os portões pra ir para o meu paraíso particular, achar conforto, antes que eu matasse um.
Aí ele me mandou parar e disse,onipotente: “Você! Que forma é essa em que está agora?”. No ímpeto da caminhada, nem reparei que,de quase etéreo,adquiria corporalidade. Uma forma estranha foi se construindo em mim ,moldada por fracasso,ódio, desapontamento. Fui lá vender seres simples, amáveis, incapazes de fazer mal, sem aquilo que agora sinto. Me voltei para o chefe. Ele parecia olhar admirado para o que me tornei. Eu ainda pouco entendia, via ramificações do corpo surgindo, sentia poder realizar mais tarefas, minha inteligência não se perdeu, o corpo aproveitava-se dela. Caminhei por aquele iluminado corredor, enquanto ao que sentia misturava-se um sentimento de alegria por ver o chefe sorrir, de ambição por talvez ter criado o ser que há tanto ele esperava. Fui chegando como quem não quer nada, mas já almejava muito mais. Respirei fundo – nem sabia o que era respirar ainda – e disse em alto e bom som: isso aqui, seu Deus, chama Homem!
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quinta-feira, 25 de março de 2010
#4 - Doce
"Biii biii.....biii biiii"
Soa de fora da igreja uma buzina enquanto o padre pregava sobre as coisas divinas e mundanas.E ela ri, se alegra! As pequenas mãos agitadas vao de encontro uma a outra, tão pequenas e singelas que seu som só é sentido por quem estava perto e bem atento. Ela sorri. Aqueles pequenos olhos, transbordando a ingenuidade e inocência típicas a idade, brilhavam tão intensamente quanto a luz da lua refletida nas gotas da forte chuva que caía. Ela cutucava a mãe, sem parar. Menina singela, das boxexas redondas como os sonhos mais gostosos da padaria, do cabelo liso,longo e intensamente negro,noturno. Por um segundo,trocamos olhares, ela me espiava naquele misto infantil de estranhamento e inocência ; eu admirado pela seu respirar ingênuo, sem ainda saber ,sem ainda ouvir o que me deixaria tocado de uma maneira ímpar.Ela cutucava a mãe, sem parar:
Mamãe,mamãe! O algodão doce mamãe!Algodão doce!!Eu quero"
Eu também quis, e ele disse amém enquanto a turba abençoada perdia o real momento sagrado da vida.
quinta-feira, 18 de março de 2010
#2 - Vento,meu rubro vento.
Num vulto vermelho no vento vinha a força de um sentimento há muito aplacado, há pouco esquecido, estado estático: êxtase do apaixonado. Se num curto lapso de um segundo ou meio, aquele em que o vermelho se destaca na branquitude do corpo e compete num jogo de forças com o preto e a urbanidade do jeans desbotado, se numa fração desse segundo o globo ocular se sente impelido a virar, a seguir... a impedir-se o involuntário ato de piscar pelo medo de perder o momento,minuto mágico meio marcado pelo atraso da chegada que ia contra o vento rubro, vetorialmente oposto, passionalmente antagônico.
Cruzar olhares, ato simples ,todavia impossível de se realizar naquele instante. Impedido por um passado marcado, um passado de alguém que já foi e nao mais o é, de histórias ocorridas que se perdiam na memória e lutavam urgentes pelo não-esquecimento,pela revelação. Cruzamento impossível pela verdade recém-revelada ao passional vermelho que passava, que num rompante raivoso romperia-se...e o rubro forte do simbólico apaixonado rapidamente se coagularia num sanguinolento e violento escarlate pela quebra de uma conexão e pacto sacralizados.
Quando a barreira se rompe e o desejo do passado toma conta e num ímpeto o corpo então se vira vendo passar o vento, com ele vem o som saudoso,sibilante,sinestésico ruído da velocidade duma lenta perseguição onírica.Aquela corrente de ar ,brisa vermelha tingida de paixão, move-se paralelamente,vagarosamente, o olhar a persegue e perdê-la não é um opção válida...não se perde novamente aquilo que há muito já se perdeu. E a brisa vira vento forte, furacão escarlate, voa,leva,destrói,abandona...todavia,apaixona.
sábado, 13 de março de 2010
#1 - Um tempo que cheira assim
Lá bem longe debaixo do sol escaldante o bravo guerreiro estica os músculos e o mal cheiro já começa a subir espero que não seja dele porque duas lindas garotas e um belo rapaz vem em minha direção que não pensem que seja eu enquanto centenas de pessoas perambulam pelo meu lado e um trovão ecoa ela atende o telefone é a amiga que sabe agora da manota justo quando Papai ligou e chega o companheiro do nosso guerreiro solitário que talvez começasse a cheirar tão mal quanto o fétido esgoto que entrava pelas minhas narinas enquanto perdia-se a ligação do telefone e esperava-se que o pai perdido desse a volta correta para buscar a jovem moça de cabelo preto e corpo mignon que já se despedia avidamente do rapaz de olhos claros que fora buscar seu carro enquanto a charmosa moreninha esgueirava-se para trás de mim donde a perdi de vista quando um rapaz passava assoviando chamando alguém que nunca respondeu e o jovem guerreiro de blusa azul dava seu primeiro golpe quando a buzina tocou.
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sexta-feira, 12 de março de 2010
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